Em busca de justiça
Basta de denúncias e divulgação: é chegada a hora de uma conversa franca e ações reparadoras
Aqui
está o que sabemos: Casey Affleck foi tirado do Oscar. James Franco
está fora da corrida. Louis C.K. e Aziz Ansari estão efetivamente
escondidos. Jovens atores renunciam a Woody Allen.
As
instituições de Hollywood, incluindo a Academia de Artes e Ciências
Cinematográficas, estão escrevendo novos códigos de conduta em relação
ao mau comportamento no ambiente de trabalho. Enquanto isso, poucos
meses depois que as acusações de assédio sexual e abuso contra Harvey
Weinstein provocaram uma avalanche de acusações semelhantes em toda
Hollywood, uma crise de pânico se desencadeou, com homens – e não poucas
mulheres – invocando os julgamentos das bruxas de Salem e o macarthismo
dos anos 1950.
Dentro desse redemoinho de
indignação, coragem, júbilo, ansiedade e receios reside uma pergunta
que anima quase todas as conversas em Hollywood nos dias de hoje: o que
vem depois? Depois que as hashtags do #MeToo se tornaram virais e os
broches do Time’s Up foram guardados? Será que a “próxima coisa” pode
ser algo mais produtivo do que a humilhação pública e o desterro
profissional, por um lado, ou ações judiciais e prisões do outro? Será
que é possível passar das “iscas de cliques” nas redes sociais para uma
responsabilização genuína e uma cura?
Laura
Dern já nos deu a resposta. Em seu eloquente discurso no Globo de Ouro,
em janeiro, ela lembrou o fato de ter sido educada em “uma cultura de
silenciar (isso) que se tornou normal”, acrescentando: “Apelo a todos
para não só apoiar sobreviventes e espectadores que são corajosos o
suficiente para contar sua verdade, mas para promover a justiça
restaurativa”.
Os colegas de Dern deramlhe
um caloroso aplauso, mesmo que muitos deles não soubessem exatamente o
que ela quis dizer com “justiça restaurativa” (alguma coisa a ver com um
tribunal? Em um spa?). Mas o que pode soar como um aforismo vagamente
aspirante tem um significado muito específico, que contém uma promessa
em particular para um setor, em meio a um intenso autoexame e uma
igualmente intensa necessidade de fuga.
A
justiça restaurativa não é nova. A Comissão de Verdade e Reconciliação
na África do Sul pós-apartheid provavelmente é o mais famoso dos
exemplos. Mas, como conceito, existe há séculos. No contexto dos dias
modernos, é mais frequentemente usado em comunidades, escolas e locais
de trabalho como uma alternativa não punitiva às tramitações
tradicionais envolvendo acusações, argumentos e punições.
Ao
contrário dos julgamentos e tribunais contenciosos, a justiça
restaurativa facilita as conversas entre pessoas prejudicadas e as
pessoas que as prejudicaram, assim como familiares, amigos e membros da
comunidade vizinha que foram impactados negativamente pela infração. Os
encontros, realizados após uma cuidadosa preparação das duas partes,
concentram-se nas pessoas prejudicadas, expressando seus sentimentos,
com os agressores ouvindo e, idealmente, assumindo a responsabilidade
pelo sofrimento que causaram. Alissa Ackerman, professora de Justiça
Criminal e pesquisadora de políticas para crimes sexuais na Universidade
Estadual da Califórnia, em Fullerton, descreve a justiça restaurativa
como uma estrutura “cuja preocupação são as pessoas e os
relacionamentos, não definições de estatutos e normas para sentenças”.
Em vez de penas de prisão ou indenizações, a restituição pode assumir a
forma de serviço comunitário, um pedido privado de desculpas ou uma
forma mais pública de reparação.
Dado o
espectro de comportamentos recentemente descritos em Hollywood – desde
sutis violações de fronteiras e abuso verbal até agressão direta e
estupro – a justiça restaurativa oferece uma maneira de reformular
situações que às vezes estão imersas em tons de cinza.
Como
seria se as supostas vítimas de James Franco, que disseram querer
apenas um pedido de desculpas do ator, pudessem alcançar esse desejo,
distante do brilho do noticiário da manhã e em um contexto mais
silencioso e mais solidário? Será que as necessidades emocionais da
mulher que se sentiu intimidada e desrespeitada após seu encontro com
Aziz Ansari seriam melhor atendidas ao apresentar suas queixas fora da
chamada cultura de mídia social? Dada a sua declaração meio defensiva e
quase autoconsciente em novembro passado, existe potencial para Louis
C.K. assumir a responsabilidade concreta pelo seu comportamento? Não que
nenhuma dessas conversas seja fácil ou possa ocorrer de forma
instantânea. “Há tanto pesar e dor que os sobreviventes precisam sentir
antes de estarem prontos para encarar seus agressores”, diz Sonya Shah,
que trabalhou com vários sobreviventes de abuso sexual no Ahimsa
Collective, em São Francisco. “As pessoas que foram prejudicadas
precisam sentir-se indignadas, irritadas, valorizadas – elas só precisam
de algum espaço para sentir-se zangadas e machucadas e entristecidas, e
um bocado de espaço para apenas ser.” Esse é o espaço emocional que a
maioria das pessoas parece estar ocupando agora. Mas se alguém decidir
buscar a justiça restaurativa em um caso particular, é essencial que
este processo seja iniciado pela parte lesada, diz Shah.
“Há
alguns sobreviventes que chegam a um perdão espontâneo de imediato, e
há outros que defenderiam a pena de morte”, diz ela. “Para a maioria
deles, o período logo após acontecer um incidente não é o momento em que
os sobreviventes pedem ajuda. Eles têm seus próprios traumas, raiva,
vergonha e raiva que precisam elaborar antes de estarem prontos para se
envolver em uma conversa ou mesmo descobrir se isso é algo que eles
querem considerar. ‘Isso vai ajudar na minha cura? Vai me ajudar a viver
uma vida plena e bela?’, questionam-se.”
Lauren
Abramson, que pratica a justiça restaurativa no Centro de Conferência
da Comunidade, em Baltimore, acrescenta que é incorreto supor que as
práticas restauradoras fracassaram, caso elas não resultem em perdão.
“Eu acho que as pessoas têm a concepção errônea de que, se você fizer
isso, tudo vai ficar resolvido”, diz Abramson. “Não se trata de forma
alguma de perdão. É para que as pessoas possam ter um espaço para
externar sua experiência, ouvir a dos outros e, ao fazê-lo, abrir as
portas para a cura. O perdão pode ou não fazer parte disso”.
No
entanto, ela acrescenta, há etapas individuais positivas que indivíduos
e instituições em Hollywood podem adotar para fugir do ciclo atual de
denúncia/divulgação e negação/defesa.
“E
se os homens em Hollywood começassem a se reunir em seus próprios grupos
e sentirem o que é admitir seus próprios comportamentos, uns com os
outros?”, Abramson indaga. Tais encontros francos e sinceros, diz ela,
“darão às pessoas uma sensação de que não existem apenas os Harvey
Weinsteins e os Louis C.K.s. Poderia ser um grupo de pessoas dizendo:
‘Algo está acontecendo, do qual fazemos parte, não nos envolvendo com
isso e não aceitando. E há algo que podemos fazer para levar o nosso
próprio comportamento a um nível mais elevado’... porque apenas usar um
broche é muito fácil.”
A boa notícia é que
alguns homens já estão indo além do broche: na entrega dos Prêmios SAG,
em janeiro, William H. Macy mencionou que havia participado de uma
reunião de homens organizada pelo Time’s Up. De sua parte, Ackerman
aceitaria a oportunidade de ajudar os festivais, as corporações e a
academia a formular métodos reparadores para fazer executar suas regras
internas.
“Estou sediada no sul da
Califórnia e cada vez que um caso se torna público, me pergunto como
faço para entrar em contato com esses homens. Porque quando você desarma
a vergonha, quando você desarma o pânico e cria uma conexão, as coisas
que surgem nessas conversas são incríveis.”
Pela
proximidade com Hollywood, Ackerman está bem situada para se tornar a
Gloria Allred (advogada que defende direitos das mulheres) da justiça
restaurativa. E, se seus ideais mais alardeados fossem levados a sério,
Hollywood deveria ser uma plataforma ideal para modelar uma prática
baseada em narração e escuta profunda. Quando os cineastas falam sobre
seu ofício, em geral dizem que o que mais valorizam como artistas são a
autenticidade, a empatia e a narrativa verdadeira. Agora, é a hora de
reunir tais valores a serviço de catarses reais, fora da tela.
EM HOLLYWOOD, A JUSTIÇA RESTAURATIVA PODE SER O CAMINHO
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