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sábado, 18 de outubro de 2025
Dono do restaurante Paris 6 tem guerra judicial com franqueados e dívidas na Justiça
Azar é dono da marca Paris 6 e da principal unidade, a da rua Haddock Lobo, no Jardim Paulista.
O empresário acusa os franqueados de usar produtos "não homologados" pela marca e de não cuidar do armazenamento correto dos
alimentos —segundo Azar, isso compromete a qualidade dos pratos.
Mas franqueados afirmam que Azar cobra uma taxa de "fundo de marketing", mas não dá o apoio prometido nem permite ações para
aumentar o faturamento dos restaurantes.
Enquanto isso, investidores como o jogador de futebol Muriqui, ex-Vasco e Atlético-MG, tentam reaver aportes feitos nos planos de
expansão de Azar para o Paris 6.
O franqueado Marcos Antonio Gaban Monteiro, dono da unidade do shopping SP Market, disse ao UOL que Azar nunca tratou os
franqueados como parceiros de negócio.
"Ele nos vê como concorrentes. Acha que, se eu servir no meu restaurante o Rodrigo Faro, vou prejudicar a unidade principal. No
restaurante dele, ele serve mais de 200 pratos. Eu só podia servir três."
Rodrigo Faro é o nome do bife à parmegiana no cardápio do Paris 6. O restaurante é famoso por batizar os pratos com nomes de
celebridades, mas não permite que franquias façam o mesmo.
O franqueado Bruno Recrosio, dono da unidade já fechada do shopping Aricanduva, reclama da falta de liberdade com os ingredientes
dos pratos.
"Ele [Azar] usa e não deixa a gente usar [ingredientes] e nos obriga a comprar de determinados fornecedores", diz Recrosio.
Marcos Monteiro disse ao UOL que Isaac usa os franqueados para financiar as ideias dele, mas nunca se preocupou com projeto ou
processos.
"A franquia inicial era de cafeteria, depois ele desistiu e tentou fazer bistrô, mas em Brasília chegou a abrir um restaurante de 1.600
metros quadrados".
Tanto o caso de Monteiro quanto o caso de Recrosio estão na Justiça, junto com mais três processos. Até agora, Monteiro foi o único
que conseguiu manter seu restaurante aberto.
Os demais foram impedidos de usar a marca Paris 6 por liminares da Justiça de São Paulo. São "franqueados cassados", nas
palavras de Isaac Azar.
Por meio de nota, Azar afirma que, entre janeiro
de 2021 e outubro deste ano, a marca do restaurante esteve sob gestão da empresa DDX, do empresário Fernando Perrone Del
Dottore.
No período, continua a nota, "a marca sofreu severo ataque à sua identidade, deixando de praticar as vistorias necessárias para que o
DNA Paris 6 fosse preservado e replicado em cada unidade Paris 6 do Brasil".
O empresário afirma que, desde outubro, trabalha para reconstruir a rede, mantendo apenas franquias que respeitem o DNA Paris 6 e
dando liberdade a cada franqueado de continuar ou não no projeto.
Dottore, da DDX, reconhece os problemas, mas nega que tenha "atacado" o "DNA Paris 6". Ele disse ao UOL que o público nunca
entendeu a proposta original dos cafés, e pedia pratos quando ia às lojas dos shoppings.
"Eu vivia isso [o Paris 6] de segunda a segunda. Gravei videoaulas para os franqueados mostrarem aos funcionários novos, criei um
site com as informações sobre a franquia e os negócios. Se eu não estivesse preocupado com padrão, faria tudo isso?", afirma
Dottore.
O empresário corrobora os relatos dos franqueados e diz que os clientes também reclamam das franquias.
A carne dos pratos da unidade da Haddock Lobo, por exemplo, tinha 200 gramas. Nas franquias, era de 100 a 120 gramas. O
polpetone da matriz era com queijo brie. O das franquias era com muçarela.
"Isso acabou prejudicando as vendas, porque eram pratos diferentes. Tivemos muitos problemas", comenta Dottore.
Segundo a nota de Isaac Azar, quatro franquias foram fechadas por meio de acordo e outras cinco foram fechadas por decisão judicial
no período.
O dono do Paris 6 vem vencendo as disputas com os franqueados. Mas ele não tem tido a mesma
sorte com credores e investidores.
Na ação contra a franquia do Shopping Aricanduva (zona leste de São Paulo), Azar diz que o franqueado, Bruno Recrosio, havia
deixado de pagar os royalties de outubro de 2024 até abril de 2025, acumulando dívidas de R$ 151,2 mil.
O franqueado relaciona o atraso no pagamento dos royalties à queda do faturamento de seu restaurante, provocada por restrições
impostas pelo próprio Azar.
Recrosio afirma que não era permitido usar os mesmos fornecedores que o Paris 6 da Haddock Lobo. Foi obrigado a assinar um
contrato de exclusividade com a Ambev que o impediu de vender os refrigerantes da Coca-Cola, servidos na unidade da Haddock.
Azar também o proibiu de fazer promoções de happy hour, como dois chopps pelo preço de um, ou passar jogos de futebol na
televisão do restaurante. "Isaac dizia que o Paris 6 não precisava disso. Mas o meu precisava!"
O Paris 6 do Aricanduva foi ainda proibido de cadastrar o restaurante no iFood. Recrosio conta que, em conversas com outros donos
de restaurantes do shopping, descobriu que o iFood era responsável por entre 20% e 30% de seus faturamentos.
"Como eu posso garantir o funcionamento do restaurante com qualidade e pagar os royalties se tenho que trabalhar com 20% a
menos que minha concorrência?", reclama. "No final eu não faturava o suficiente nem para pagar a folha [de pagamento dos
funcionários]."
O processo em que Recrosio foi proibido de usar a marca Paris 6 está em trâmite na Justiça de São Paulo. O franqueado tenta
reverter a liminar obtida por Azar, até agora sem sucesso.
A única liminar contra franqueados negada foi a da ação contra Marcos Gaban Monteiro, o franqueado do shopping SP Market.
Os argumentos levados por Azar no caso foram os mesmos dos demais: falta de pagamento de royalties (Azar
cobra R$ 87,1 mil mais multa) e problemas constatados em uma inspeção surpresa.
O franqueado acusa Azar de ter assinado um acordo com a gigante das bebidas por meio do qual ganhou entre
R$ 1,5 milhão e R$ 2 milhões em troca de a Ambev fornecer aos franqueados com exclusividade.
Azar não comentou a acusação do franqueado.
Ele ainda era obrigado a usar uma marca de azeite para a qual Azar licenciou o nome do Paris 6. Só que uma
garrafa de 200 ml desse azeite custava R$ 56.
Na época (maio de 2022), a garrafa de 500 ml custava em média R$ 25 nos supermercados, segundo estudo de 2023 da consultoria
Horus.
Monteiro conta ainda que, na época da negociação inicial, a promessa era que as carnes servidas nas franquias seriam enviadas já
pré-cozidas no método "sous vide" (cozimento em baixa temperatura em água feito com os alimentos selados a vácuo).
Mas, já na primeira semana, isso mudou, e Azar decidiu que as carnes seriam preparadas em uma cozinha central e distribuídas às
franquias, que deveriam apenas esquentá-las por 15 minutos num forno e servi-las.
"Claro que a qualidade não seria a mesma. E além de tudo isso, Isaac decidiu trocar de cozinha central depois de seis meses, porque
a inicial era ruim. Como recuperar a confiança do cliente depois de seis meses servindo comida que o próprio franqueador achava
ruim?", reclama Monteiro.
Em dezembro de 2020, Azar vendeu à empresa DDX, do empresário Fernando Del Dottore, quatro franquias e uma sublicença que
autorizava à DDX revender as franquias em troca de uma taxa. Dottore passou, então, a ser um "master franqueado".
O Paris 6 chegou a ter 20 franquias em funcionamento, a maioria delas vendida pela DDX. Hoje, são quatro.
A partir de 2023, a relação entre Azar e Dottore se tornou litigiosa. Azar pediu que a Justiça obrigasse Dottore a prestar contas de suas
atividades, enquanto Dottore ajuizou uma ação para cobrar R$ 500 mil do Paris 6.
Em outubro de 2024, a Justiça de São Paulo deu razão a Azar e proibiu Dottore de usar a marca Paris 6 em seus restaurantes. Foi a
partir daí que Azar começou a litigar contra seus franqueados.
"Tentamos negociar, mas a contrapartida que recebi foi uma ação pedindo a rescisão do contrato", conta Dottore.
Já Azar diz ao UOL que os problemas com os franqueados decorrem da relação deles com Dottore. Segundo ele, Dottore autorizou os
franqueados a adotar diversas medidas que descaracterizaram os restaurantes, e por isso ele foi à Justiça contra os antigos parceiros.
O restaurante Paris 6 é badalado na noite paulistana. É conhecido por ficar aberto 24 horas, pela profusão de opções no cardápio e
por ter pratos batizados com nomes de celebridades.
Isaac Azar é famoso no meio artístico e tem algumas celebridades como investidores —hoje, credores.
Mas a história que os processos judiciais aos quais o UOL teve acesso contam é a de um empresário que tenta se livrar de dívidas
enquanto tenta expandir o próprio negócio.
Conforme documentos públicos disponíveis, o Paris 6 acumula dívidas de pelo menos R$ 21 milhões: R$ 4 milhões de dívidas
tributárias cobradas na Justiça; R$ 7 milhões de dívidas cobradas por investidores e fornecedores; e mais R$ 14 milhões de
empréstimos registrados no balanço de 2022, o último disponível na Jucesp (Junta Comercial de São Paulo).
"Quanto ao faturamento, lucro ou passivo do Paris 6, não comento números. Mas é certo que, como todas as empresas do setor, o
Paris 6 teve problemas financeiros, procurando solucionar todos eles", disse Azar ao UOL.
Segundo uma ação de cobrança ajuizada pelo jogador de futebol Muriqui, Azar começou a ter problemas financeiros em 2016.
Naquele ano, transformou o Paris 6 em uma sociedade anônima de capital fechado e saiu em busca de investidores.
Muriqui investiu R$ 1,8 milhão no Paris 6 em maio de 2016, em troca de 20% do lucro líquido anual de uma unidade a ser aberta em
Campinas (SP). Ele poderia resgatar o dinheiro depois de um ano. Azar nunca pagou.
Em maio de 2023, o empresário foi condenado pela Justiça paulista a transferir ao jogador 20% do faturamento de sua empresa até
sanar a dívida. Aplicando as correções previstas no contrato, em maio de 2023 a dívida era de R$ 2,9 milhões.
Conforme consta dos autos do processo de execução, Azar vem pagando suas dívidas com Muriqui.
Ele apresentou uma notícia-crime contra Azar por
estelionato ao MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro), e houve até oferecimento de acordo, mas o caso foi arquivado antes da
intimação de Azar.
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