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quarta-feira, 19 de novembro de 2025
Mariana: A Tragédia que Continua a Matar – Uma Reflexão Após a Sentença na Corte Inglesa
Eram 8h da manhã quando o peso de uma expectativa que há dez anos acompanha milhares de famílias, dezenas de cidades e incontáveis vidas destroçadas pela maior tragédia socioambiental da história do Brasil: o rompimento da barragem em Mariana.
Às 10h30, no horário de Londres, a juíza da Corte inglesa leria a sentença no processo movido contra a BHP, a maior mineradora do mundo. O direito era sólido, os fatos eram incontestáveis, e a responsabilidade sempre esteve diante dos olhos da sociedade. Ainda assim, mesmo após décadas de advocacia, é inevitável que o coração aperte quando se depende do Judiciário para dar sentido, voz e reparação à dor humana. A tragédia ceifou lares, culturas, economias, ecossistemas e futuros. E essas mortes continuam acontecendo, dia após dia, uma década depois.
Em 5 de novembro de 2015, às 16h20, 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos romperam a barragem de Fundão. Um tsunami de lama avançou por casas, escolas, plantações e pelo Rio Doce, arrastando com ele vidas e tudo o que lhes dava sentido. Ali começaram múltiplas mortes: Seres humanos soterrados, Espécies inteiras de peixes extintas, Plantações arrasadas, O envenenamento histórico das águase Comunidades que perderam seus rituais, suas crenças e seu vínculo ancestral com o rio
A morte não foi apenas física. Foi cultural, espiritual, ambiental e econômica. Os 250 km percorridos pela lama, impregnada de metais pesados como arsênio, chumbo e mercúrio, alteraram permanentemente a bacia do Rio Doce. A redução de oxigênio, a mudança no curso das correntes e o depósito de toneladas de rejeitos modificaram o próprio destino das águas que sustentavam milhões de pessoas.
As vítimas não sofreram apenas com a lama. Sofreram – e ainda sofrem – com a morosidade, com o desinteresse, com a burocracia. Enquanto empresas se empenharam em preservar seus resultados financeiros, famílias lutaram por sobrevivência, dignidade e voz. Muitas delas continuam lutando.
Em 25 de outubro de 2024, uma repactuação homologada pelo Supremo Tribunal Federal previu R$ 132 bilhões para reparação. Embora importante, o acordo deixou milhares de pessoas de fora e ainda está longe de compensar a profundidade e a pluralidade dos danos sofridos. Foi um passo, mas pequeno diante da extensão da tragédia.
Às 10h30, como manda o rigor britânico, o resultado finalmente foi publicado. A Inglaterra reconheceu aquilo que o Brasil e o mundo já sabiam: a BHP foi responsável pelo desastre e deveria responder na justa extensão dos danos causados. A decisão não foi apenas jurídica; foi moral, política e humana.
Em vez de reconhecer o marco histórico alcançado, ainda há quem tente desqualificar os municípios que buscaram seus direitos fora do Brasil. Faltam grandeza, sensibilidade e, principalmente, respeito. Enquanto mães que perderam filhos afirmam que “agora ele pode descansar em paz”, autoridades se apressam em defender mineradoras e ampliar teses para tentar reduzir a responsabilidade financeira das empresas.
A verdade é simples: enquanto a mineradora não se dispuser a reconhecer o tamanho da ferida que abriu e oferecer um acordo justo e rápido, a tragédia continuará a matar, silenciosamente, lenta e repetidamente.
Mariana não é apenas uma tragédia ambiental. É uma ferida aberta na memória do Brasil e um lembrete de que vidas humanas, rios, comunidades e histórias não podem ser tratados como danos colaterais de balanços trimestrais.
A sentença inglesa é uma vitória – da advocacia, das vítimas e da própria Justiça. Mas ela é também um alerta: a luta continua. Porque, enquanto houver pessoas sofrendo, enquanto seus rios ainda carregarem lama e enquanto a reparação não for plena, novas mortes continuarão acontecendo.
E o país não pode aceitar que isso se torne normal.
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